China: por que o país mais populoso do mundo passou...

28/12/2018

Quando a China acabou com a política do filho único, há três anos, havia esperança de que os casais tivessem um segundo filho para ajudar a desacelerar o ritmo de envelhecimento da sociedade. Mas não está funcionando.

Bebê chorandoDireito de imagem

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A China está agora se esforçando para incentivar os casais a ter mais filhos


A taxa de natalidade em declínio é hoje um dos assuntos mais comentados em toda a China - e há uma verdadeira sensação de crise.

Declarações de autoridades e propagandas estatais agora incentivam os casais a "terem filhos em nome do país", gerando críticas nas mídias sociais de que a campanha do governo é invasiva e insensível.

As medidas em discussão vão desde ampliar a licença-maternidade até estimular um segundo filho por meio de incentivos financeiros e fiscais. E há quem defenda que os limites de filhos por família – hoje, são permitidos até dois – sejam eliminados por completo.

Com o objetivo de conter o crescimento populacional, a política do filho único da China foi introduzida em 1979, um ano após as reformas econômicas. A regra foi rigorosamente aplicada para a maioria. Quem a violava podia ser multado, perder o emprego ou ser alvo de aborto forçado e esterilização. Mas a taxa de fertilidade já havia entrado em declínio acentuado na década anterior.

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Gráfico sobre a taxa de fertilidade na China, EUA e Índia

Por anos, a China se beneficiou de seu crescimento demográfico, com um grande população (quase um quinto de todo o mundo) capaz de fornecer ampla mão de obra, enquanto tinha ao mesmo tempo um número razoável de pessoas muito jovens e idosas. Isso favoreceu a rápida ascensão econômica do país.

Mas o cenário está rapidamente mudando. Para que o desenvolvimento econômico continue e a China seja capaz de lidar com o envelhecimento do país, o ritmo de nascimentos precisa crescer em vez de declinar.

O fim da política do filho único em 2015 mirou esse objetivo, mas os dados apontam que, apesar da liberdade adquirida, os jovens parecem não querer mais filhos.

Quão grave é o problema da baixa taxa de natalidade?

De acordo com o Departamento Nacional de Estatísticas da China, houve 17,86 milhões de nascimentos em 2016. A população chinesa cresceu em 1,31 milhão de pessoas - foram 12,95 nascimentos a cada 1 mil habitantes, a maior desde 2001.

Mas, em 2017, quando a política de dois filhos já deveria produzir efeitos, houve 17,23 milhões de nascimentos, uma queda de 630 mil em comparação com 2016. E a taxa de natalidade foi de 12,43 a cada 1 mil habitantes, 0,52% menor em relação a 2016 e abaixo da previsão mais pessimista antes da introdução da nova política.

As expectativas para o futuro são ainda mais sombrias sob essa política do governo. A taxa de natalidade deve continuar a cair a partir de 2018, e, em dez anos, o número de mulheres chinesas com idade entre 23 e 30 anos será 40% menor e haverá cerca de 8 milhões de nascimentos por ano.

Não surpreendentemente, esse tornou-se um dos temas mais debatidos na China. Em 6 de agosto, o jornal oficial do Partido Comunista, o Diário Popular, dedicou uma página inteira ao assunto.

Um artigo de opinião intitulado "Ter filhos é um assunto de família, mas também uma questão nacional" advertia que o Estado precisava de novas políticas para lidar com o impacto da baixa taxa de natalidade sobre a economia.

Meninos chineses com bandeiras do paísDireito de imagem

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A mídia estatal chinesa vem tratando o envelhecimento da população como uma questão de interesse nacional

Um artigo no jornal estatal Xinhua Daily, escrito por dois acadêmicos da Universidade de Nanjing, provocou protestos. Eles sugeriram a criação de um fundo para nascimentos, para o qual todos com menos de 40 anos contribuiriam. Se um casal tivesse um segundo filho, poderia retirar dinheiro deste fundo. Se não, teria de esperar até a aposentadoria.

"Penalizar quem tiver um filho ou não? Por favor, parem de mirar nas carteiras das pessoas", foi apenas um dos artigos publicados em resposta à proposta, que foi rotulada de imprudente, injusta e desnecessária.

Alguns exigiram que o Estado lide com o motivo de os jovens não querem mais filhos e tente reduzir o custo de criar uma criança, em vez de criminalizar financeiramente as pessoas.

Por que isso é tão urgente agora?

A China está rapidamente se tornando uma sociedade envelhecida. Não só a taxa de natalidade vem caindo, mas hoje vive-se mais - a expectativa de vida era de 66 anos quando a política do filho único foi introduzida e, agora, é de 76.

Gráfico da população da China por faixa etária

Isso colocará a economia chinesa sob grande pressão no futuro. De acordo com estatísticas oficiais, o número de pessoas entre 15 e 64 anos superou 1 bilhão em 2013, mas vem diminuindo constantemente desde então - e essa tendência continuará.

Ao mesmo tempo, o número de idosos está crescendo. Em 2016, a população total da China era de 1,39 bilhão - incluindo 158 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, ou 11,4%.

Isso é mais do que uma vez e meia a definição da Organização das Nações Unidas (ONU) de uma sociedade envelhecida, quando 7% da população têm 65 anos ou mais. A ONU prevê que chegará a 17,1% em 2030.

Isso significa que os idosos são sustentados por um número cada vez menor de pessoas em idade ativa. De acordo com um artigo do site Ifengweekly, havia 3,16 jovens para cada idoso em 2011. Em 2016, a taxa caiu para 2,8. A previsão é que, até 2050, seja de apenas 1,3.

Como em outros países com projeções semelhantes, isso tem enormes implicações para a economia, para o sistema de aposentadorias e para os serviços voltados para as necessidades de idosos.

Por que as pessoas não têm mais filhos?

Muitos jovens na China que cresceram durante as três décadas de planejamento familiar rigoroso e amplo desenvolvimento econômico têm uma mentalidade diferente de seus pais.

Em geral, eles estão acostumados a ser o centro das atenções e desfrutam de riqueza material e liberdade pessoal muito maiores. Também estão se casando e tendo filhos mais tarde (se é que o fazem) e se concentram mais em suas próprias carreiras e felicidade, uma tendência que não se limita à China.

Pessoas caminham na rua em Shanghai, na ChinaDireito de imagemGETTY IMAGES Image caption
Para muitos jovens chineses, ter filhos não é uma prioridade

Quando pensam em começar uma família, uma grande preocupação é se podem pagar por isso. Pesquisas mostram que, em média, criar uma criança em uma cidade pode consumir mais da metade da renda familiar.

Creches sempre recebem inscrições em excesso, por isso muitos precisam contar com a ajuda dos avós das crianças. E ainda há a hipoteca e outros compromissos no orçamento. Em outras palavras, ter um filho é uma batalha. Ter outro demanda ainda mais recursos e apoio.

"Nossa geração tem um tremendo fardo sobre os ombros", disse uma mulher, que não quis ser identificada na reportagem. "Nossos pais idosos, nossos filhos pequenos, nossas carreiras. Tudo isso junto pode acabar com a gente."

A mulher, na faixa dos 30 anos, já tem um filho de cinco anos. Ela e o marido decidiram não dar a ele um irmão. A falta de vagas em creches é um grande motivo. "Então, contratamos babás para cuidar do nosso filho e pedimos aos nossos pais que fiquem de olho na babá."

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Como a política do filho único mudou

Quatro gêmeos nascidos em 2016Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption
A Chine enfrenta dificuldades para combater o declínio do crescimento populacional

1979: Proposta do governo limita todos os casais a um filho.

1982: Planejamento familiar se torna uma política básica do Estado.

2000: Um casal pode ter um segundo filho, se ambos forem filhos únicos.

2013: Casais são autorizados a ter um segundo filho se um deles é filho único.

2015: Fim da política de um filho, todos os casais podem ter um segundo filho.

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Por outro lado, algumas mulheres mais velhas, já com 60 e poucos anos, dizem que teriam tentado ter um segundo filho se a política tivesse sido alterada antes, mesmo se já estivessem em idade avançada.

Então, a política durou tempo demais? Houve um debate nacional suficientemente robusto em torno do tema? Muitas pessoas estão agora se fazendo essas perguntas.

Os líderes da China demoraram a agir?

Todos os censos realizados depois de 1990 apontam para o rápido declínio da taxa de fertilidade (o número médio de filhos de uma mulher ao longo da vida) na China, que é inferior aos 2,1 necessários para haver uma reposição da população.

Mas o índice foi alvo de grande controvérsia. Uma pesquisa populacional em 2000 indicou que a taxa era alarmantemente baixa, de 1,22. Autoridades de planejamento familiar disseram, no entanto, que seria de 1,8, argumentando que muitos nascimentos não eram registrados. No fim, o índice mais elevado prevaleceu.

Essa diferença pode significar que uma situação urgente foi subestimada ou deixada de lado?

Ainda hoje, é difícil encontrar uma figura com grande autoridade sobre a taxa de fertilidade da China - alguns indicam que está em 1,2-1,4; outros, entre 1,5 e 1,7 - abaixo dos Estados Unidos (1,8) ou da Índia (2,3).

Pedidos de mudanças para conter o declínio do crescimento populacional parecem ter recebido pouca atenção. Há mais de uma década, Ye Tingfang, membro do principal conselho político da China, a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, argumentou contra intervenções e apresentou uma moção no Congresso em 2007, pedindo o fim da política do filho único assim que possível.

O Comitê Estatal de Planejamento Familiar disse que o país não mudaria a política. Ele fez uma petição em seguida, que foi ignorada.

Outras vozes dissidentes incluem James Liang e Jianxin Li, dois professores da Universidade de Pequim e autores do livro Há Chineses Demais?, publicado em 2012.

Eles argumentaram que a taxa de natalidade da China teria se tornado muito baixa e que, se a tendência continuasse, o país envelheceria muito rápido, a economia sofreria e a sociedade se tornaria instável. E recomendaram ajustes na política de planejamento familiar.

É difícil adivinhar o que aconteceu nos bastidores das tomadas de decisão. O fato é que em 2013 houve um relaxamento da política do filho único.

Duas crianças te deixam rico?

Hoje em dia, algo que mudou é que parece haver uma discussão mais ampla sobre questões populacionais na China. Em alguns locais, autoridades pararam de multar que tem filhos além da conta.

Alguns especialistas propõem o uso de 2% a 5% do PIB para incentivar nascimentos, por meio de reduções de impostos e incentivos em dinheiro. Outros dizem que as pessoas devem ter tantos filhos quanto quiserem.

Design do selo do ano do porcoDireito de imagemREUTERS Image caption
O governo faz campanha para incentivar famílias maiores 'em nome do país'

E há muita propaganda de incentivo, a qual as pessoas criticam na internet. "Precisamos de um pouco de espaço para respirar!", disse um internauta. "Isso tudo vai contra o que nos disseram quando crescemos (para casar tarde e ter menos filhos)", lamenta outro.

Isso é o que realmente mudou. As pessoas têm mais independência e liberdade de formular seus próprios pontos de vista e não são tão facilmente influenciadas por propaganda ou incentivos moderados. Vivem por si mesmas, não mais pelo país.

E é muito mais difícil incentivar o crescimento populacional do que restringi-lo. No fim das contas, ter filhos é uma decisão que cabe a cada indivíduo.

BBC News Brasil

O frigorífico que produz carne de frango sem matar uma ave

18/10/2018

Há uma crise iminente diante do crescente apetite por carne no mundo. Será que um frango que cisca em uma fazenda em São Francisco pode ser a solução?

FrangosDireito de imagem
ALAMYImage caption
Bilhões de animais são abatidos anualmente para alimentar a população

Há uma crise iminente diante do crescente apetite por carne no mundo. Será que um frango que cisca em uma fazenda em São Francisco pode ser a solução?

Em 1931, Winston Churchill previu que um dia a raça humana "escaparia do absurdo de criar uma galinha inteira para comer o peito ou a asa, produzindo essas partes separadamente".

Oitenta e sete anos depois, esse dia chegou, como descobrimos na Just, empresa de alimentos em São Francisco, nos EUA, onde provamos nuggets de frango fabricados a partir das células de uma pena de galinha.

O frango - que tinha gosto de frango - ainda estava vivo, supostamente ciscando em uma fazenda não muito longe do laboratório.

Essa carne não deve ser confundida com os hambúrgueres vegetarianos à base de verduras e legumes e outros produtos substitutos de carne que estão ganhando popularidade nos supermercados.

Não, trata-se de carne real fabricada a partir de células animais. Elas são chamadas de diversas formas: carne sintética, in vitro, cultivada em laboratório ou até mesmo "limpa".

São necessários cerca de dois dias para produzir um nugget de frango em um pequeno biorreator, usando uma proteína para estimular as células a se multiplicarem, algum tipo de suporte para dar estrutura ao produto e um meio de cultura - ou desenvolvimento - para alimentar a carne conforme ela se desenvolve.

O resultado ainda não está disponível comercialmente em nenhum lugar do planeta, mas o presidente-executivo da Just, Josh Tetrick, diz que estará no cardápio em alguns restaurantes até o fim deste ano.

"Nós fazemos coisas como ovos, sorvete ou manteiga de plantas e fazemos carne apenas a partir de carne. Você simplesmente não precisa matar o animal", explica Tetrick.

Nós provamos e os resultados foram impressionantes. A pele era crocante e a carne, saborosa, embora a textura interna fosse um pouco mais macia do que a de um nugget do McDonald's ou do KFC, por exemplo.

Tetrick e outros empresários que trabalham com "carne celular" dizem que querem impedir o abate de animais e proteger o meio ambiente da degradação da pecuária intensiva industrial.

Eles afirmam estar resolvendo o problema de como alimentar a crescente população sem destruir o planeta, ressaltando que sua carne não é geneticamente modificada e não requer antibióticos para crescer.

A Organização das Nações Unidas (ONU) diz que a criação de animais para a alimentação humana é uma das principais causas do aquecimento global e da poluição do ar e da água. Mesmo que a indústria pecuária convencional se esforce para se tornar mais eficiente e sustentável, muitos duvidam que será capaz de acompanhar o crescente apetite global por proteína.

Abatemos 70 bilhões de animais por ano para alimentar sete bilhões de pessoas, destaca Uma Valeti, cardiologista que fundou a Memphis Meats, empresa de carnes fabricadas a partir de células, na Califórnia.

Segundo ele, a demanda global por carne está dobrando, à medida que mais pessoas saem da pobreza. Nesse ritmo, acrescenta, a humanidade não conseguirá criar gado e frango suficientes para saciar o apetite de nove bilhões de pessoas até 2050.

"Assim, podemos literalmente cultivar carne vermelha, aves ou frutos do mar diretamente dessas células animais", diz Valeti.

Muitos americanos afirmam que estão comendo menos carne, mas dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos sugerem que o consumidor médio ainda vai ingerir mais de 100 quilos de carne vermelha e frango neste ano - cerca de 20 quilos a mais do que consumiam nos anos 1970.

Hamburger de frango Image caption
A demanda por carne está crescendo em todo o mundo

O cientista holandês Mark Post é um dos pioneiros da agricultura celular - seu primeiro hambúrguer produzido em laboratório, em 2013, custou US$ 300 mil.

Nenhuma empresa ampliou ainda a produção para servir comercialmente um hambúrguer feito a partir de células, mas Post estima que, se começasse a produzir seus hambúrgueres em massa, poderia reduzir o custo de produção para cerca de US$ 10 cada.

"É claro que ainda é muito alto", avalia.

Se a Just conseguir fabricar nuggets de frango suficientes para vender neste ano, é improvável que seja em um restaurante americano, pois o governo dos EUA ainda está decidindo como proceder.

A maioria dos alimentos no país é regulada pela Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA, na sigla em inglês). Mas alguns - principalmente a carne produzida convencionalmente - são controlados pelo Departamento de Agricultura (USDA, na sigla em inglês).

Então, se você compra uma pizza congelada nos EUA, o USDA é responsável pela de pepperoni e o FDA, pela de queijo.

"Há vários países na Ásia e na Europa com os quais estamos conversando", diz Tetrick.

Segundo ele, "há uma falta de clareza" em relação à regulamentação nos EUA, enquanto o USDA e o FDA realizam audiências públicas sobre o tema.

"Acho que os países querem assumir essa liderança. Seja pela escassez de alimentos, por questões de sustentabilidade ou apenas pelo desejo de construir uma economia inteiramente nova, eles querem assumir essa liderança", disse Tetrick.

O objetivo final é levar a "carne celular" do laboratório para grandes fábricas.

Existem atualmente dezenas de empresas que atuam nessa área e estão atraindo investidores de capital de risco do Vale do Silício e de outras regiões. Bilionários como Bill Gates e Richard Branson estão entre aqueles que investiram dinheiro na tecnologia.

O produto também conta com um benfeitor mais surpreendente: a Tyson Foods, que investiu uma quantia não revelada na Memphis Meats.

A Tyson é a maior processadora de carnes dos EUA - são cerca de 424 mil suínos, 130 mil vacas e 35 milhões de frangos processados por semana.

Então, por que a companhia estaria investindo em "carne celular"?

Ela decidiu "deixar de ser uma empresa de carne para ser uma empresa de proteína", diz Tom Mastrobuoni, diretor financeiro da Tyson Ventures, braço de capital de risco da Tyson.

"Tomamos a decisão consciente de que seremos a maior empresa de proteínas", acrescentou.

A tecnologia de ponta do Vale do Silício pode ser sinônimo de um espírito liberal e empreendedor, mas os EUA ainda são um país onde a tradição fala alto.

A Associação dos Pecuaristas tem um lobby forte e não há nenhum símbolo mais venerado ou romantizado na história do país do que a figura do caubói.

E, assim, os fazendeiros do Meio-Oeste estão entrando no debate sobre como este novo produto será comercializado - como carne limpa, carne celular, carne livre de abate, proteína ética ou apenas carne?

Em seu rancho em Ozarks, região montanhosa que se estende do Missouri ao Arkansas, Kalena e Billy Bruce alimentam seu rebanho de gado Black Angus, com a ajuda da filha de quatro anos, Willa.

Kalena and Billy Bruce, with Willa Image caption

Kalena e Billy Bruce, com a filha Willa, em seu rancho em Ozarks, nos EUA

"Acho que precisa ser rotulado propriamente - como proteína produzida em laboratório", opina Billy Bruce.

"Quando penso em carne, penso no que está atrás de nós, um animal vivo que respira."

O estado do Missouri concorda. A pedido dos agricultores, os legisladores determinaram que o rótulo de carne só pode ser aplicado ao produto do gado. É um indicio de que o rompimento com a agricultura tradicional pode estar a caminho.

"Do ponto de vista da transparência para os consumidores, para que saibam o que estão comprando e dando para suas famílias comerem, achamos que precisa ser chamado de algo diferente", diz Kalena Bruce.

Lia Biondo, diretora de políticas de expansão da associação de pecuaristas dos EUA, com sede em Washington, diz que espera que a lei do Missouri possa ser reproduzida em outros Estados.

"Vamos deixar que essas empresas decidam como chamar seus produtos, desde que não chamem de carne", diz Biondo.

Mas, em todo caso, será que alguém vai realmente comer esses produtos?

Frequentadores do Lamberts, restaurante tradicional do Meio-Oeste em Ozark, no Missouri, terão que ser convencidos.

"A carne deve ser criada em uma fazenda, nos campos", declara Jerry Kimrey, trabalhador da construção civil de Lebanon, no Missouri.

A professora Ashley Pospisil, também de Lebanon, diz que prefere não comer carne à base de células.

"Eu gosto de saber de onde a carne veio, que é natural e não foi processada em laboratório", diz ela.

Linda Hilburn, que está comendo um bife antes de ir para casa em Guthrie, em Oklahoma, concorda:

"Tem algo na criação do homem que me assusta. Só causamos destruição aqui. Eu meio que gosto da ideia da criação de Deus."

Enquanto Hilburn está longe de ser a única a ter um pé atrás com a "comida Frankenstein", como os críticos a rotularam, Josh Tetrick insiste que a carne feita a partir de células é totalmente livre das muitas doenças animais que afetam a produção tradicional de carne.

E ele está apostando na experiência humana a favor do progresso.

"No fim das contas, se você está falando do avanço do picador de gelo para a geladeira ou da matança de baleias para usar seu óleo em lamparinas até as lâmpadas incandescentes... mesmo que as pessoas associassem as lâmpadas ao diabo... a humanidade conseguiu abraçar algo novo."

"Isso sempre acontece e, se eu tivesse que apostar, é o que vai acontecer em relação a isso também."

Regan Morris e James Cook

BBC News, São Francisco

Eleições 2018: O peso de cada região do Brasil

08/10/2018

O mapa do Brasil ficou novamente dividido em dois na apuração do primeiro turno das eleições presidenciais de 2018. De um lado, Jair Bolsonaro, o primeiro colocado, venceu em 17 Estados - em todos das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste e na maior parte da região Norte. De outro, Fernando Haddad, em segundo lugar, liderou em 8 dos 9 Estados do Nordeste e no Pará, no Norte.

Eleitora com a filha no colo, ao lado de uma sessão de votação, e em frente a um mapa do Brasil com o nome das 5 regiõesDireito de imagem 
EPA Image caption Jair Bolsonaro venceu em 17 Estados, Haddad em 9 e Ciro Gomes em 1

O único Estado do país que ficou fora dessa polarização foi o Ceará, onde Ciro Gomes ficou em primeiro lugar.

Esta é a quarta eleição presidencial seguida em que o mapa do Brasil fica dividido entre duas cores. Até 2002, a maioria dos Estados votava de forma semelhante.

Já a partir de 2006, quando o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva disputou a reeleição, as regiões passaram a votar de forma diferente. Naquele ano, o PT liderou em todo o Nordeste, parte da região Norte, Minas Gerais e Rio de Janeiro, entre outros. Já o PSDB esteve à frente em São Paulo, no Centro-Oeste e em parte do Sul e do Norte. Em linhas gerais, esse padrão se manteve até 2014.

A principal diferença neste ano foi a substituição do PSDB pelo PSL, partido ao qual Jair Bolsonaro se filiou em março. A segunda mudança mais importante foi a redução da área de influência do PT. Nas eleições de 2014, o partido venceu em 15 Estados; em 2010, em 18. Nesta, foram apenas 9 Estados.

A BBC News Brasil mostra abaixo alguns gráficos que ajudam a entender o peso de cada região do país na votação dos candidatos a presidente neste primeiro turno.

Mapa da apuração do primeiro turno, mostrando quem venceu em cada Estado: Bolsonaro em verde, Haddad em vermelho, Ciro em amarelo Image caption Mapa da apuração do primeiro turno, mostrando quem venceu em cada Estado: Bolsonaro em verde, Haddad em vermelho, Ciro em amarelo

1) De onde vieram os votos dos três primeiros colocados

A grande maioria dos votos de Jair Bolsonaro, 68%, teve origem no Sul e Sudeste. São 10 pontos percentuais a mais do que o peso dessas regiões no eleitorado brasileiro - ou seja, 58% dos eleitores do país vêm dessas duas regiões.

Já o desempenho do candidato no Nordeste foi baixo. Ali, o militar reformado conquistou 15% dos seus votos, quando a região representa 27% do eleitorado.

No caso de Haddad, o cenário é o oposto. De todos os votos no candidato, 46% foram no Nordeste. É mais do que o petista obteve nas regiões Sul e Sudeste juntas, 38%.

No caso de Ciro Gomes, de cada 100 votos que o candidato recebeu, 41 vieram do Sudeste e 36 do Nordeste. As demais regiões tiveram pouco peso na sua votação.

O gráfico abaixo mostra o percentual de votos dos três primeiros colocados no primeiro turno, decomposto por região. A primeira barra mostra os 46% de Jair Bolsonaro; a segunda, os 29% de Fernando Haddad; e a terceira, os 12,5% de Ciro Gomes.

Repare que, no caso de Bolsonaro, a faixa azul (Sudeste) é a mais representativa. Para Haddad, a faixa vermelha (Nordeste) é a maior. Note também que, apesar de Bolsonaro ter ido pior no Nordeste que em outras regiões, ainda assim obteve mais votos nordestinos que Ciro Gomes.

Gráfico mostra a decomposição da votação de Bolsonaro, Haddad e Ciro por região do Brasil

2) O número de votos que cada região deu para os três primeiros colocados

Outra forma de olhar para os números é pela quantidade de votos totais que cada região deu para cada candidato. A vantagem desse tipo de abordagem é que é mais fácil perceber o tamanho e o peso do eleitorado de cada região. O gráfico abaixo está dividido pelas cinco regiões. Cada cor representa um candidato e a altura de cada barra indica o total de votos.

O que mais chama a atenção é a votação de Bolsonaro no Sudeste, região que tem o maior número de eleitores do país. A distância do ex-capitão do Exército para Fernando Haddad no Sudeste é tão grande (15 milhões de votos a mais) que chega a superar a votação total do petista no Nordeste (14,5 milhões de votos).

Já a vantagem de Bolsonaro em relação a Haddad no Sul (cerca de 620 mil votos) é próxima à vantagem de Haddad em relação a Bolsonaro no Nordeste (em torno de 700 mil votos).

Na região Norte, por sua vez, a disputa entre Bolsonaro e Haddad foi mais acirrada.

Gráfico mostra quantos votos cada região do país deu para Bolsonaro, Haddad e Ciro

3) O resultado da votação em cada região do Brasil

O resultado do primeiro turno foi 46% para Jair Bolsonaro, 29,3% para Fernando Haddad e 12,5% para Ciro Gomes. Veja abaixo qual foi a proporção para cada região do Brasil.

- Centro-Oeste: 58% Bolsonaro, 21% Haddad, 10% Ciro.

- Nordeste: 26% Bolsonaro, 51% Haddad, 17% Ciro.

- Norte: 43% Bolsonaro, 37% Haddad, 9% Ciro.

- Sudeste: 53% Bolsonaro, 19% Haddad, 12% Ciro.

- Sul: 57% Bolsonaro, 20% Haddad, 9% Ciro.

- Exterior: 59% Bolsonaro, 10% Haddad, 14% Ciro.

Gráfico mostra a votação dos três primeiros colocados por região do país nas eleições 2018

Agora, compare com o resultado por região após o primeiro turno das eleições de 2014. No Brasil como um todo, Dilma Rousseff teve 42% dos votos válidos e Aécio Neves, 34%. Marina Silva ficou em terceiro lugar, com 21%.

É possível reparar que a votação do PT caiu em todas as regiões do Brasil. E que, também em todo o Brasil, a adesão a Bolsonaro é maior que o apoio ao PSDB quatro anos atrás.

Veja os resultados da votação para presidente:

Resultados das eleições presidenciais
% de votos válidos, excluindo votos brancos e nulos
Escolha seu estadoAcreAlagoasAmapáAmazonasBahiaCearáDistrito FederalEspírito SantoGoiásMaranhãoMato GrossoMato Grosso do SulMinas GeraisParáParaíbaParanáPernambucoPiauíRio de JaneiroRio Grande do NorteRio Grande do SulRondôniaRoraimaSanta CatarinaSão PauloSergipeTocantinsTOTAL PAÍS
Clique nos Estados para ver os resultados em dethales

TOTAL PAÍS

Seções apuradas: 100,00%Última atualização: 03h35 (horário de Brasília)
  1. JAIR BOLSONAROPSL49.387.416 votos
    46,05%
  2. FERNANDO HADDADPT31.361.213 votos
    29,24%
  3. CIRO GOMESPDT13.371.855 votos
    12,47%
  4. GERALDO ALCKMINPSDB5.102.873 votos
    4,76%
  5. JOÃO AMOÊDONOVO2.693.085 votos
    2,51%
  6. CABO DACIOLOPATRIOTA1.349.483 votos
    1,26%
  7. HENRIQUE MEIRELLESMDB1.289.886 votos
    1,20%
  8. MARINA SILVAREDE1.074.460 votos
    1,00%
  9. ALVARO DIASPODEMOS862.280 votos
    0,80%
  10. GUILHERME BOULOSPSOL618.382 votos
    0,58%
  11. VERA LÚCIAPSTU56.105 votos
    0,05%
  12. JOSÉ MARIA EYMAELDC41.885 votos
    0,04%
  13. JOÃO GOULART FILHOPPL30.329 votos
    0,03%
  1. VOTOS VÁLIDOS107.239.252 votos
    91,22%
  2. VOTOS BRANCOS3.111.942 votos
    2,65%
  3. VOTOS NULOS7.210.458 votos
    6,13%

Se você não puder ver o mapa acima, clique neste link

Amanda Rossi

Da BBC News Brasil em São Paulo

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